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Ventos de inovação
Fonte: Marcelo Medeiros – O Globo – Rio de Janeiro / RJ – 16/06/2009
 

Foto: Divulgação

A pequena ilha de Samso, na Dinamarca, vive há dois anos consumindo apenas energia de fonte renovável

Samso, na Dinamarca, é uma pequena ilha de 4.300 habitantes, 114 Km² e poucas atrações. Procurada por dinamarqueses no verão devido às suas praias, mas longe de ser um grande destino turístico, a ilha aproveita os ventos da inovação tecnológica e a luz da consciência ambiental para chamar a atenção do mundo. Seus moradores vivem há cerca de dois anos sem passivo ambiental relacionado à geração de energia, pois utilizam fontes renováveis em praticamente todo seu cotidiano. E ainda lucram.

A eletricidade da Ilha é toda gerada por 21 turbinas eólicas - dez no mar e 11 em terra - com capacidade para produzir 34 MW. Juntas, elas geram 105.400 MW/h por ano, o suficiente para todas as casas.

Já o aquecimento das casas é garantido por quatro termoelétricas que utilizam palha e restos de madeira para aquecer os dutos de água, além de painéis solares instalados em uma fazenda e nos tetos das residências.

A eletricidade não consumida é vendida diariamente ao operador de energia da Dinamarca - o contrário do que acontecia 12 anos atrás, quando a Ilha era totalmente dependente do abastecimento externo, proveniente de carvão e petróleo. A operação garante bons lucros aos moradores, que se cotizaram há mais de dez anos, quando a emissão de CO2 era de 45 mil toneladas por ano, para construir o inovador sistema de energia insular e assim cortar totalmente seu débito de CO2. Hoje a ilha, distante quatro horas de Copenhague (duas de carro e outras duas de barco), é não só autossuficiente em energia como vende créditos de carbono - o equivalente a 30% de seu consumo.

A história da mudança de Samso começa em 1997, quando o governo dinamarquês, interessado em promover o uso de energia proveniente de fontes renováveis, organizou um concurso entre pequenas cidades. Venceria quem apresentasse o melhor plano para cortar totalmente as emissões de carbono em até dez anos. A vencedora receberia apoio logístico, promoção e subsídios no mercado de energia.

Samso, com ajuda de uma empresa local, candidatou-se e venceu, com um projeto de utilização de turbinas eólicas e biomassa. Faltava, porém, um importante fator para dar a partida: recursos financeiros. A prefeitura da pequena cidade não tinha condições de bancar o projeto sozinha e as empresas locais tampouco estavam dispostas a encarar o desafio. Afinal, cada turbina custava, à época, cerca de US$ 1 milhão. Eram necessárias onze, além das usinas de biomassa.

Era preciso mobilização popular, concluíram os envolvidos: - Posso parecer romântico, mas acredito que existam pessoas dispostas a fazer algo junto pela comunidade em vez de esperar a ação das autoridades - diz Soren Harmensen, conselheiro do Gabinete de Energia e Meio Ambiente de Samso e um dos líderes da luta pela implementação do projeto.

Jorgen Hald, contador da Associação de Energia Eólica de Samso, lembra que foram necessárias várias reuniões para chegarem a um consenso: - Alguns fazendeiros não queriam turbinas em suas terras devido ao barulho.

Outros brigavam por tê-las em suas propriedades - disse.

Cidadãos, governantes e empresários participavam desses encontros, nos quais surgiu a fórmula vitoriosa, a criação de cooperativas, como a própria associação da qual Hald faz parte, para cobrir uma parcela dos gastos e decidir assuntos polêmicos.

- As pessoas se encontravam bastante para festas e reuniões, mas não para investir na própria ilha. A última experiência cooperativa havia sido a de freezers comunitários nos anos 50, antes de cada um ter sua própria geladeira - lembra o contador.

O investimento de US$ 11 milhões, para produzir 22.800 MW/h por ano, seria então dividido entre todos. Dois terços dos adultos assinaram um compromisso de ajudar no processo comprando cotas. Nove turbinas foram adquiridas por fazendeiros ou grupos de fazendeiros, que as instalaram em suas propriedades, de acordo com estudos técnicos. As outras duas são hoje propriedade de cooperativas de moradores, que podem comprar "cotas" de cada turbina.

O pioneiro na instalação de turbinas foi o fazendeiro Jorgen Tranberg, que comprou sozinho um dos modernos moinhos de 50m de altura (contadas as pás, a altura chega a 70m): - Penso no futuro - responde Tranberg quando perguntado sobre suas motivações - No futuro do planeta e também dos meus negócios.

O pragmatismo aliado à consciência ecológica é marca dos investidores de Samso. Poucos se atêm ao caráter meramente ambiental e afirmam que foram convencidos de que as turbinas eram um bom investimento a longo prazo.

Em suas terras, onde planta abóbora e batata e cria gado, Tranberg instalou uma turbina de 1 MW de potência.

Logo depois, outras três, financiadas por outros empresários ou cooperativas.

Sua conta de luz diminuiu e o excedente de energia pôde ser posto à venda. Ele não revela o quanto lucrou, mas garante não ter se arrependido.

Segundo cálculos da Academia de Energia de Samso, centro de estudos criado com recursos provenientes dos lucros das turbinas, cada usina se paga em, no máximo, sete anos. A vida útil é de duas décadas.

Parte da lucratividade é explicada pela ação do governo dinamarquês, que permite a todos os produtores de energia, por menores que sejam, venderem seu excedente no mercado.

Ao mesmo tempo em que começavam a avistar a possibilidade de lucros por meio das turbinas movidas a vento, os samsonianos decidiram economizar nos seus gastos com calefação.

O que não significa enfrentar o rigoroso inverno do norte europeu sem aquecimento, mas aproveitar os recursos disponíveis na ilha.

Três usinas de biomassa foram inauguradas e outra, reformada. Elas são movidas por restos da produção agrícola de trigo, centeio e restos de madeira, o que deu novo incentivo aos agricultores, pois passaram a receber pelo que antes era lixo. Uma das usinas, Nordby/Marup, no norte da ilha, também tem uma fazenda de painéis solares de 2.500 m2, que operam em sincronia com a queima. Quando o dia está com pouco sol, mais biomassa é incinerada e vice-versa, garantindo o aquecimento das casas.

- É um modelo mais barato do que via eletricidade ou petróleo - garante Lasse Lilivang, diretor de energia do município. - Atualmente, 75% do aquecimento da ilha vêm dessas usinas.

O restante fica a cargo de mecanismos particulares, como painéis solares e fornos domésticos.

A fim de diminuir o consumo do sistema central, a instalação de placas fotovoltaicas nas residências foi subsidiada, assim como fornos movidos a madeira. Graças à tecnologia, os novos fornos possuem baixíssimo consumo.

O excedente de energia produzido pelos painéis no verão pode ser vendido ou transformado em crédito.

O Instituto de Tecnologia da Dinamarca ministrou cursos para que as pessoas aprendessem a instalar placas solares em suas casas e administrar a energia produzida. Bombeiros e encanadores também receberam treinamento para adaptar seus serviços à nova realidade de materiais e padrões de eficiência.

Um problema, porém, persistia. A maioria dos carros que rodam pelas ruas da ilha é movida a gasolina. Comprometidos com o projeto de zerar suas emissões de carbono em até dez anos, como mandava o concurso, a solução veio de onde sopra o vento.

No mar foram instaladas outras dez turbinas de energia eólica, com cem metros de altura cada, em uma grande operação de engenharia.

O custo da engenharia foi de aproximadamente US$ 50 milhões. A diferença de preço em relação às turbinas terrestres se deve à maior complexidade de instalação e à maior potência das unidades marítimas, que chegam a ter 103 metros de altura.

O sistema de investimento foi o mesmo, porém com a participação da prefeitura. Cinco unidades são do poder público, três de empresários e as duas restantes, dos cidadãos cooperativados.

Os 77.500 MW/h gerados pela fazenda eólico-marítima são vendidos no mercado de energia.

Os lucros do negócio estão sendo reinvestidos em outros projetos de energia sustentável. A prefeitura inaugurou em 2007 a Academia de Energia de Samso, dedicada a apresentar a experiência insular mundo afora e também a procurar novidades. Os 400 mil euros investidos no prédio, cujo teto é praticamente todo coberto por placas fotovoltaicas, garantem o salário de pesquisadores.

Já houve uma tentativa de introduzir carros elétricos, mas seu custo afastou compradores. A ideia agora é desenvolver tecnologias para que os carros funcionem com biomassa. A canola produzida nas fazendas locais aparece como uma boa opção de combustível.

Outra linha de pesquisa planeja construir uma usina de biogás movida pelos detritos das criações de porco. O gás natural seria utilizado para gerar mais eletricidade e o calor de sua queima, para calefação adicional.

As experiências de Samso, além de gerarem recursos e fazerem bem ao meio ambiente, produziram outros efeitos. A ilha passou a atrair turistas e pesquisadores interessados em saber como é possível diminuir as emissões de gases poluentes e também gerou empregos qualificados em um local marcado pelo êxodo de jovens profissionais: - Mostramos que as grandes iniciativas começam pequenas, mas quando envolvem as pessoas, tomam proporções pouco imaginadas - disse Jesper Kjems, porta-voz da Academia de Energia.

 

 



 

 
 
 
 
 
 
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